A Relação Médico–Paciente no Mundo do Estresse



Você já ouviu falar (ou já sentiu na pele) que o número de ações judiciais em geral e também contra médicos vem aumentando muito no Brasil? Já se perguntou por quê?

É uma pergunta importante, porque um dia a vítima pode ser você. Além disso, saber as causas pode te ajudar a prevenir esse tipo de problema. Por isso, o objetivo desse texto é abordar tanto ao médico quanto ao paciente alguns fatores que têm levado a este cenário de litígio.

De fato, tem ocorrido uma mudança geral nas relações pessoais.

É perceptível que a vida está, sim, cada vez mais apressada e que não conhecemos a maioria daqueles que cruzam nosso dia-a-dia. Com isso, não se criam mais vínculos com as pessoas do cotidiano (aposto que sua avó conhecia os donos do mercado onde ela fazia as compras e enquanto era atendida – provavelmente pelo dono – conversava com ele sobre os filhos ou sobre se a sogra tinha melhorado daquela gripe).

Aliás, pergunte para a sua avó ou sua mãe quem era o médico deles quando ela era jovem. Ela certamente vai dizer: “Ah, era o Dr. Tal... nos atendeu durante anos!”. Algo como “Fez até o parto da sua tia!” tem grande chance de aparecer nessa conversa.

Se você fizer essa pergunta para alguém hoje, a resposta será: “A minha cardiologista é a Dra. Tal. Fui um tempo no Dr. Outro, mas essa Dra. Tal abriu consultório aqui mais perto de casa. Tenho também o meu dermato, lá daquela clínica bonita na rua X! Ah! Meu endócrino é o Dr. Mais Um. E estou mesmo precisando ir atrás de um reumatologista... vou olhar o catálogo do plano de saúde”.

O que se percebe é que, cada vez mais, as relações pessoais são substituídas por sistemas: tudo tem uma organização própria e tudo, se manejado de acordo com o sistema, deve chegar ao resultado esperado. Isto leva as pessoas a um estado de piloto automático em que ser atendido por alguém num supermercado não é realmente ser atendido por outra pessoa, mas apenas ser atendido por um componente do sistema do supermercado.

Esta falta de pessoalidade, que é geral, leva o paciente a também não ver mais o médico como uma pessoa (e aqui poderia estar o ponto final da frase, reparou?) que está ali como um suporte para ajudar na recuperação da saúde do paciente e construir junto com ele a melhora na sua qualidade de vida.

Na prática, o paciente vê o médico como só mais uma etapa do sistema de saúde: uma peça entre o pagamento da mensalidade do plano de saúde e o consumo do remédio que vai fazê-lo melhorar (porque quem cura agora é o remédio, e não o médico, você não soube?).

Então o paciente chega ao consultório médico e já espera um sistema: aguardar um tempo na sala de espera, entrar no consultório, responder umas perguntas, aí vai para a maca: “respira fundo... de novo!”. Então, o médico olha os exames e dá a receita para um remedinho de 12 em 12 horas. Pronto. Deu tudo certo, pois tudo ocorreu conforme o previsto no sistema.

Mas se algo sai de dentro do esperado... aí o bicho pega! Parece que sair do previsto no sistema é praticamente uma ofensa!

– Como assim, o tratamento que você me deu não está respondendo como esperado?
– Como assim mudar o medicamento, você estava me dando o medicamento errado??
– Como assim você vai me dar um diagnóstico diferente daquele que eu pesquisei no Google ou com a cunhada da colega de trabalho que tem um vizinho cujo irmão já teve isso???

Aí o paciente acha que o médico é que não sabe o que está fazendo (como se a medicina fosse uma ciência exata sobre a qual a humanidade já tem 100% de conhecimento e como se todos os corpos fossem absolutamente iguais) e já chama aquele sobrinho que se formou em advocacia para cobrar uma indenização “do médico safado”. Afinal, tem que aproveitar que médico é rico!

Parece, de fato, que está todo mundo estressado e louco para arrumar briga. E quando nos sentimos ofendidos nós aproveitamos para extravasar todo o sentimento de impotência com relação aos problemas do mundo e aí vamos para cima com tudo!

Tanto é assim que, hoje, brigar é um direito de cada um (sério, está na lei que todos podem procurar o Judiciário a qualquer momento sobre o assunto que quiserem – e muitas vezes podem fazer isso de graça!). E a briga é feia, porque quem briga tem certeza de que está do lado certo: “A lei está do meu lado. Você conhece o Código de Defesa do Consumidor?”.

E as pessoas estão mesmo estressadas! Afinal, elas são constantemente bombardeadas com a mensagem de que precisam consumir cada vez mais para chegar à felicidade, à vida boa, e mais: ter certos produtos é a prova de que você finalmente conseguiu ser melhor do que o vizinho, do que o amigo de infância, do que aquele colega de profissão que uns anos atrás trocou de carro e você não.

Por isso, as pessoas estão sempre com pressa e querem aproveitar qualquer oportunidade de ganhar dinheiro (“pois não é justo os outros terem e eu não ter; eu trabalho muito mais que os outros! Olha o facebook desse cara aqui, a gente estudou junto no colégio! Ele é que tá com a vida boa, só tem foto de festa, de viagem e de churrasco! E eu aqui, só ralando... Poxa, também quero me dar bem!”).

Aí, um paciente que se sinta lesado corre imediatamente para o sistema, e a resposta do sistema é a Ação Judicial.

Além de ser fácil e barato mover uma ação judicial, não há mais nos pacientes aquele sentimento de pessoalidade e confiança que ainda é forte nos médicos: “Uma ação judicial?! Nossa! Eu cuidei tanto desse paciente... Uma traição!”.

Então, de um lado, o paciente não tem relação pessoal com o médico e pode, facilmente, procurar outro. De outro lado, está todo mundo correndo atrás de uma oportunidadezinha de ganhar um dinheiro fácil. E o médico é a vítima perfeita.

É claro que o problema todo não se resume a esses aspectos abordados acima, mas eles são o ponto de partida, ou melhor, o ponto de chegada do paciente ao consultório.

A conclusão, portanto, é que o médico tem que se desdobrar mais uma vez e, ao receber o seu paciente, tem que ter sempre em mente que ele não é só um paciente de cárdio, ou de dermato, ou uma gestante, mas é também um paciente do estresse, da carência de vínculos e de relações pessoais, além de sofrer da frustração com os sonhos de consumo ainda não alcançados.

Por isso, a receita é: Empatia! Em várias doses ao longo de cada consulta!

Este é o melhor remédio para a relação médico-paciente. Um “bom dia” ou “boa tarde”, um sorriso e um aperto de mão, uma ou outra pergunta sobre a vida do paciente (que nem tem lá sua relevância para o diagnóstico, mas vai anotada no prontuário só para na próxima consulta o médico poder perguntar “e aí, tá lá na empresa X ainda?”). São coisas simples e muito rápidas, mas que podem ajudar muito a desarmar a relação médico-paciente, sem falar que contribui muito no tratamento, pois muito mais que o remédio, é a confiança no médico que abre as portas do paciente para a cura!

Então, quem sabe... Quem sabe, os médicos não voltam a dar sempre um pirulito no fim da consulta?

Autor: Dr. Rodrigo Lufiego
(OAB/SC 27.457)

Colaboração: Dr. Julyan Baum Vegini
(OAB/SC 55.568 – CRM/SC 13.341 – RQE 9.269)

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